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Relato de Nelson

Estava em Paris, em meu último dia, preparando-me para  o retorno ao Brasil.
O hotel era distante do aeroporto Charles de Gaulle, quanto de distância eu não sabia.
Acertei a vinda de um táxi, bem antes do horário do “check-in”. Tinha um vôo da Air France para Lisboa ás 7:30 hs. 
 
 

De lá eu pegaria o vôo da Varig para o Brasil ás 13:00 hs. Teria de estar no aeroporto, seguindo as normas duas horas antes.
Dentro do táxi ,fui informado pelo motorista de que existiam três terminais da Air France no aeroporto, um distante do outro uns dez minutos de ônibus interno.
Pediu-me a especificação do terminal constante em minha passagem.
Não havia especificação alguma, fiquei apavorado! Onde ficaria eu? E o atraso se o terminal fosse errado? Perderia o vôo?
Arrisquei o terminal “um” e ali ele me deixou... Ao sair do táxi com duas malas grandes e duas pequenas, fui procurar um carrinho.
Cadê? Não havia nenhum! Talvez porque fosse cedo demais, talvez porque estivesse eu no lado errado do aeroporto...Sei lá!
Fiquei mais apavorado, estressado, será que era aquele o terminal certo?
Fui procurar pessoas, atendentes da Air France ou funcionários do aeroporto para me informar sobre o vôo, já que na tela  do monitor não aparecia o vôo de Lisboa.
Carregando as malas, e as sacolas, cansado, nervoso, irritado, fiquei vagando uns dez minutos para todos os lados.
Até que um cidadão perdido atrás de um balcão, ainda com sono, me disse que o terminal correto era o “dois” e que eu deveria pegar o ônibus descendo o elevador.
E lá vou eu! Olhando para o relógio, e já estava atrasado uns dez minutos para o “check-in”
Continuava carregando o meu fardo, colocando-o finalmente dentro do ônibus vazio, que me levava ao terminal “dois”.
Lá descendo informou-me o motorista que eu deveria ir á pé do terminal “dois A” onde ele me deixara, para o terminal “dois D” onde eu deveria providenciar o embarque.
Resignado procurei novamente por carrinhos e novamente o mesmo resultado desolador...
Não havia nenhum!
Ainda indaguei ao motorista com mímicas onde os acharia, ao que ele me respondeu só com um triste “ni a pá” significativo de negação.
E lá vou eu! Mais estressado, mais agoniado com o tempo perdido, para o terminal dois D.
Carregando as pesadas malas e as duas sacolas e me lamentando por não ter a companhia de alguma pessoa para me ajudar.
E continuo a carregar as malas com uns cinqüenta á cinqüenta e cinco kilos mais ou menos, que se tornavam á cada momento mais pesadas.
O meu desespero  se traduziu num mal estar cardíaco, próprio de hipertenso e diabético.
Sentindo já falta de ar, com a boca seca, com o coração batendo cada vez mais forte, como se fosse sair do corpo.
Era o risco de um enfarte, seguramente. A pressão arterial se fosse medida mataria de susto qualquer  médico inexperiente.
E agora? Só vejo nos espaços vazios daquela ala do aeroporto, uma faxineira lá distante e mais nada, ninguém...
Carrinhos? Nem pensar... Continuo carregando as malas, continuo passando mal, continuo desesperado, estressado, irritado, com falta de ar.
Deparo-me com uma escada rolante daquelas de degrau, outro desafio...
Colocar as malas ali, sem derruba-las e sem que eu rolasse abaixo.
Consegui! Sabe-se lá como! E desço e me equilibro lá embaixo e saio ileso, com as malas no chão.
Atinjo aí o “pico” de meu desespero, até pensei numa oração... Mas nem tinha forças para isso.
Repentinamente no saguão enorme que eu estava, tendo de andar mais uns cento e cinqüenta metros, para atingir o lado contrário, onde outra escada rolante me faria subir até o terminal desejado, vejo atônito uma mulher...
Jovem, cabelo estilo ‘channel” morena, altura média, com um vestido tipo “tailler” todo amarelo forte.
Vindo em minha direção e passando por mim, dirigindo-se até a escada rolante.
Quando ela passa, fico mais atônito ainda, vislumbro do lado direito, uns dez metros á frente, abandonado no meio do saguão um CARRINHO com placas amarelas do mesmo tom do vestido daquela mulher.
Mais do que depressa, apanho o carrinho e coloco as malas. Era a minha salvação, com medo que aquela mulher virasse para trás e também visse o carrinho e o quisesse para ela.
Nem me virei para olha-la esquecido até de que ela nem trazia bagagem alguma e sim mera bolsa de alça.
Finalmente acalmei-me e aliviei-me e subi com o carrinho á outra escada rolante (nem me lembro como o fiz) .
Fui dar no terminal dois D onde por ironia o “check-in” nem havia sido aberto, embora já estivesse a quase cinqüenta minutos do vôo marcado.
Lá, enquanto eu esperava, procurava ver se existiam outros carrinhos abandonados e não havia nenhum.
Lembrei-me estarrecido de um detalhe: Para onde teria ido aquela mulher quando por mim passou? A única direção que ela poderia tomar era...(pasmem...!) a da escada rolante que Quem ela seria? Um ET que sobe por escadas rolantes que só descem?
Ou um anjo da guarda, o meu, de plantão, enviado por Deus?
E pintado de amarelo? Ou...
Tempos depois, contando esta visão da mulher e o inexplicável achado do carrinho à diversos amigos e pessoas.
Deparei-me com a explicação de um ilustre escritor, estudioso em mentalização
De que aquela mulher poderia ser a baiana Maria Quitéria personagem da história do Brasil.
Segundo relatos de outras pessoas costumava aparecer nessas horas de sofrimentos, de desespero, para dar forças aos necessitados que mentalizassem um pedido de ajuda.
Não sei se isto procede , mas certamente posso dar meu testemunho de que a mão de Deus naquela hora me acudiu e que ela se mostrou na cor amarela.

Obrigado Deus!

Nelson Caruso Conserino.
Promotor de justiça aposentado.
Professor universitário de Direito Penal
10/01/04.  
 

 

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